O quinto latido na sétima arte

2 06 2009
Cachorro Grande lança quinto trabalho

Cachorro Grande lança quinto trabalho

 

A banda gaúcha radicada há alguns anos em São Paulo e embrião de sucessos como Sex Experienced (Responsável pela aparição dos caras no main stream) e Você me faz Continuar (Canção mais recente, do álbum Todos os tempos) lança na segunda quinzena de junho seu quinto trabalho: Cinema, disco que dialoga o tempo inteiro com a sétima arte – seja na sonoridade forjada nas telonas, seja nas letras simulando passagens dos filmes preferidos de Beto Bruno e companhia.

A marca registrada na carreira dos roqueiros, a intenção de decalcar a arte que fazem com sonoridades e imagens antigas, é contemplada neste trabalho talvez até mais explicitamente. Os versos já não são falados tanto em primeira pessoa, o que é também um sintoma de maturidade de quem escreve.

Mas é no retrato de Cisco Vasques, que protagoniza o projeto gráfico do disco, onde se reconhece aquela matéria gasta que eles tanto prezam: o grupo trajado com os tradicionais ternos negros, os penteados sempre remetendo os anos 60 e a atmosfera de cinema antigo, alguma matinê perdida em décadas passadas.

Foto: Clic RBS





Figurinhas Carimbadas

21 05 2009
Stoned

Stoned

 

Nome: Amy Jade Winehouse

Idade: Carinha de 42, mas completa apenas 26 em setembro.

Cidade Natal: Londres. Orinuda, mais especificamente, do subúrbio de Southgate, lugar de grana escassa e arte em abundância.

Banda: A carreira solo é acompanhada de uma turma de músicos talhados na arte do Jazz Até o brancos da banda transmitem a atmosfera de músicos negros, favorecidos pelo traje escuro paletó, gravata e calça pretos, e camisa branca.

Função: Contrapor-se às cantoras negras com rebolado de brasileira, voz de branca e música ruim, com sua voz de negra, pele branca e melodia refinada.

Estilo: Auto-destrutivo: um tanto arcaico para estrelas do nosso século. Ainda que coerente com a história de vida de Amy.

Religião: Culto herege que venere o pó, o uísque e a fossa: e tenha Sara Vaughan como deusa maior.

Influências: clássicos do Jazz da primeira metade do século passado e a música negra americana originada dele.

Relevância: concilia a preocupação em compor belas canções, encharcadas de influência mais rebuscadas, como o famigerado Jazz – o que faz suspirar muitos críticos – com uma pitada de pop, sobretudo nas letras confessionais, o que assegura um quinhão de respeito no main stream.

Foto: lekau.net





Quando se tem 16 anos

13 05 2009

 

Alex é o estereótipo do adolescente de 16 anos de nossos tempos: cara de poucas palavras, filho de pais divorciados, travando uma competição sadia e velada com o melhor amigo, aprendiz de skatista e namorando uma garota que não o compreende. Nada além da história vivenciada por milhões de pessoas no mundo todo. Até que ele resolve freqüentar o Paranoid Park, ponto de encontro de punks e skatistas de Nova York.

A ausência do melhor amigo Jared, permite o contato com outras pessoas, com aqueles caras que ele antes só admirava e temia à distância. O convite para perseguir os trens na estação próxima surge de um desses boca brabas. Quando surpreendidos pro uma vigia em plena carona ferroviária, ele e o novo conhecido, repelem o segurança. Alex passa a acumular mais um problema – e o mais grave deles – para sua já conturbada existência adolescente: o envolvimento num assassinato.

Este é o enredo de Paranoid Park (2007), filme de Gus Van Sant, aquele mesmo diretor de Elephant (Sobre a tragédia de Columbine ) e Last Days (Sobre os últimos dias de Kurt Kobain). Mais uma vez, Sant faz uma incursão pelo universo jovem, trabalhando um processo de culpa, tão repetido no cinema em histórias adultas, numa atmosfera bem menos usual.

O elenco amador contribuiu para a veracidade que recende do filme, mesmo que deixe a desejar em alguns momentos na atuação. Nada que impeça as experimentações tão conhecidas do diretor mais grunge do cinema mundial. Os planos longos e solenciosos, por vezes em câmera lenta, permitindo (ou induzindo) ao (o) espectador a refletir quando necessário.

Destaque para a cena em que os skatistas do colégio são chamados à diretoria para conversar com o detetive que investiga o caso. Alex deixa o refeitório e inicia a marcha lenta e penosa pelo corredor. Aos poucos, outros colegas juntam-se a ele deixando as salas e transformando aquele calvário interminável numa especulação distraída e sem importância.

E, é claro, nem tudo está perdido para que tem 16 anos. Quando Macy, garota muito mais parecida com Alex que a prórpra namorada, entra na história, a chance de uma remissão se torna possível. Até a trilha sonora, tão tensa e dramática durante quase todo o filme, relaxa. E Alex, enfim, encontra seu caminho.





Figurinhas Carimbadas

4 05 2009
Talento proporcional ao sebo no cabelo

Talento proporcional ao sebo no cabelo

 

Nome: Julian Casablancas

Idade: 30 anos.

Cidade Natal: New York.

Banda: The Strokes.

Função: Vocalista, mentor, letrista, sex symbol.

Estilo: A alguns metros de distância: sujo e desleixado; a 50 centímetros: elegantemente despenteado. Quando visto no palco, da distante plateia, ou pela tela da tevê, ensaia um balé bêbado e cambaleante, como qualquer rock star: cínico, dissimulado e livre de pudores; a verdade: é um alcoólatra apenas nos shows, é casado e garante que não trai a mulher.

Religião: ainda é jovem demais para acreditar na morte, e os milhões de dólares do pai – um empresário que nada na grana gerada pela cadeia de hotéis que carrega o sobrenome da família – devem adiar essa preocupação. Lá pelos 50, aí sim poderemos ver Julian assumindo algum credo diferente dos vícios e valores mundanos.

Influências: Velvet underground, Television, Ramones. Ainda que, lá pelos quinze anos, Julian tenha começado a compor inspirado nas melodies do Nirvana.

Relevância: Julian liderou a reocupação do main stream pelo rock bem feito, sobretudo aquele criado em terra estadunidense. Os Strokes, junto do White Stripes, foram os grandes nomes desse movimento que estourou no final dos anos 90 e influenciou bandas como Kings Of Leon, Franz Ferdindand e Libertines.

Foto: livejournal.com





Salve Ferris!

9 04 2009
O ainda pós-adolescente Matthew Broderick

O ainda pós-adolescente Matthew Broderick

Véspera de feriadão é a cara dessa figura acima. Ferris Bueller, uma lenda que afronta, a cada Sessão da Tarde da Globo que é agraciada com sua displicente presença, todos os pragmáticos e inimigos do ócio. Um dos vagabundos mais competentes da história do cinema.

Pra curtir a vida adoidado no fim de semana prolongado que está por chegar, fica a filosofia do for fun way of life do cara, numa cena emblemática do filme.

 





Figurinhas Carimbadas

6 04 2009
Em par com deus

Dele vem a calma

 

Nome: Marcelo de Souza Camelo.

Idade: 31 anos.

Cidade Natal: Jacarepaguá, Rio de Janeiro.

Banda: Há dois anos, era o guia espiritual, um dos vocalistas e principal compositor dos Los Hermanos. Desde então, anda solito, de violão em punho, Ray Ban transparente amparado pelo nariz adunco e pudores musicais guardados nos bolsos, dedilhando pelos palcos do Brasil o repertório do cd Sou.

Função: Profeta de uma geração que busca em figuras da própria idade referências de Chico, Caetano e outros bambambans de nossa música. Ah, é também o moço dos olhos da Mallu Magalhães.

Estilo: Pós-hippie despojado. Atribui muito mais ao acaso que ao próprio talento a zelosa atenção de público e crítica sobre o seu trabalho. O que também soa, para os mais desconfiados, como a velha e perigosa hipocrisia.

Religião: Aquela que reconheça a música pagã por excelência – ou seja, o samba – seu rito maior. E a que considere a comunhão da vida por todos os seres de boa vontade que assim o desejam, a nossa sina inequívoca.

Influências: Lá no final dos anos noventa, um pouco de samba e muito de rock. A partir do Bloco do Eu Sozinho, muito de samba (de Elizete Cardoso a Chico Buarque) e um pouco de rock (Weezer). No último álbum dos Hermanos, o 4, a maturação e início da fase atual como compositor e letrista: o apreço pela simplicidade. Misturando numa panela de barro bem brasileira, o samba, o rock e os sons que o cotidiano recicla todos os dias.

Relevância: O melhor letrista de sua geração. Retomou um curso de melodia e poesia que se perdeu na explosão do rock brasileiro dos anos 1980. É um dos herdeiros de Chico, Caetano e Novos Baianos.

 

Foto: Folha On line.





Vicky Cristina Barcelona e Woody Allen

2 04 2009
73 anos de algumas neuroses e muito talento

73 anos de algumas neuroses e muito talento

Woody Allen é um hiperativo. Basta olhar qualquer retrato dele – e mesmo na condição imóvel do retrato ele passa uma aura inquieta. E assim o é. A profusão de filmes realizados em sua extensa cinematografia obriga qualquer fã corajoso que resolva colocar a lista de obras em dia, a separar uma fatia grande de seu tempo para fazê-lo.

O último deles é Vicky Cristina Barcelona (2008). A história de duas americanas que viajam à cidade espanhola atrás de respostas que a vida no país natal não oferecia. Vicky (Rebeca Hall) procura familiarizar-se com a cultura catalã para enriquecer sua tese de mestrado em algum campo da sociologia. Cristina (A sex symbol e queridinha de Allen, Scarlett Johansson) é movida por objetivos menos palpáveis, que transitam entre o amor e o sexo. Nessa busca, ambas se deparam com o pintor catalão Juan Antonio Gonzalo (Javier Barden). Homem de sensibilidade para as artes e casamento conflituoso e até violento com a ex-esposa María Elena (Uma atormentada Penélope Cruz).

É da relação desses quatro, sobretudo, que o filme trata. Ou da impossibilidade dessa relação, negada pelas limitações e vícios das personalidades de cada um. Claro que na trama de 96 minutos não faltam os clássicos diálogos extensos e de frases curtas e certeiras de Woody Allen. Como sempre, cada personagem principal é uma extensão da inquietação do cineasta nova-iorquino mais famoso do mundo.

Toma uma prova do filme:

 





Figurinhas carimbadas

28 03 2009
Do lado negro da força

Do lado negro da força

 

Nome: Gerard Arthur Way

Idade: Completa 32 anos em 9 de abril.

Cidade Natal: Newark.

Banda: a visceral, pré-adolescente e down My Chemical Romance.

Função: Vocalista, mentor, letrista, designer, figurinista e problemático.

Estilo: Pós-gótico, Pós-Punk, Mega-depressivo.

Religião: Qualquer uma que venere deuses macabros e figuras que remetem à morte.

Influências: o som, de bandas oitentistas como The Smiths e The Cure; a estética, de filmes de horror: do lado negro da força; a formação, da avó, Helena.

Relevância: o terceiro álbum do My Chem, The Black Parade (2006), é um dos responsáveis pelo começo de um reconhecimento da crítica. Junto dos discos contemporâneos do Fall Out Boy e do Panic At The Disco, a obra convenceu muitos que duvidavam da mensagem e do som do MCR. As três seguem sendo rotuladas de bandas emo, mas passaram a merecer o tratamento de bandas de rock. Gerard é um dos pilares dessa mudança.





Acordes samaritanos

25 03 2009

 

Não é novo o engajamento social de artistas pop. Reuniões de músicos e compilações de canções em favor de desabrigados ou mesmo festivais cujas rendas são encaminhadas para esse fim já viraram lugar-comum. E isso sempre é bacana.

Quando a arte (no caso, a música) se limita a protestar, em suas mensagens, contra a probeza, acusar o exagero de uma minoria rica diante das agruras de uma maioria pobre, é sempre digno de admiração – ainda que de alguma forma a obra perca força e importância.

Mas quando artistas acostumados a tratar de variados universos, que transitam do amor à morte, da melancolia à luxúria, arregimentam seu trabalho por uma causa nobre como o bem-estar de outras pessoas, essa iniciativa ganha proporções maiores. A arte não precisa de inimigos a combater, como a pobreza. E a hipocrisia perde terreno.

Tudo isso foi dito até agora para louvar outro projeto apoiado por astros pop, criado para ajudar seres humanos em situação desumana. O rock star mais bom moço da história, Bono Vox, e outras figuras carimbadas da música doaram discos, camisas autografadas e outros objetos que aceleram o coração e desinibem o bolso dos fãs para um leilão organizado pela ONG War Child. O dinheiro arrecadado será empregado na assistência a crianças que moram em zonas de guerra.

Junto do líder do U2, a clássica presença do Coldplay, Brandon Flowers, vocalista do The Killers, e Pete Doherty, ex-Libertines. Aliás, este último, responsável pela peça mais bizarra do leilão: uma gravura do Festival GlastonBury 2008 rabiscada por ele, e com o próprio sangue.





Os Ratos deixam o Porão

24 03 2009

Faz alguns anos que João Gordo concilia tarefas aparentemente antagônicas: ser front man da banda metaleira cujo habitat é o underground, Ratos de Porão, e apresentar programas de entrevistas ou atrações bizarras, enquadrando-se nos padrões exigidos por nossa mídia, na MTV brasileira.

O que transformou o Metal Star tonelada num personagem esquizofrênico: ora aparece no palco como intérprete visceral e endemoniado do Ratos; ora joga conversa fora com artistas do main stream nacional, dotado de um vocabulário peculiar para a quantidade de tatuagens, que são proporcionais aos quilos do músico. Não é raro ouvi-lo desfilar palavras como ‘chiquérrimo’ no ar.

Pois o João Gordo que vai aparecer nos cinemas em um documentário da produtora Black Vomit é o protagonista do hardcore nacional, voz maior desde 1983 da banda que é reconhecida pelas melodias rápidas e letras contestadoras e anárquicas.

Guidable – A verdadeira história dos Ratos de Porão traz depoimentos dos quatro atuais membros (Além de João Gordo: Jão, Boka e Juninho), ex-integrantes (contabilizados em sete, nos 29 do grupo) e de outros especialistas em timbres pesados, como Andreas Kisser (Sepultura) e Igor Cavalera (Cavalera Conspiracy).

Abaixo, o trailer do documentário, que deve ganhar as telonas já nos próximos meses.